segunda-feira, 2 de junho de 2008

Esquizofrenia matutina

Escutou a voz e acentiu com a cabeça. Concordava e era quase impossível discordar. Não era desses sujeitos que vêm coisas, nem dos que escutam vozes mandando fazer algo. Não, era na verdade desses sujeitos normais. Normais mesmo, quase sem graça. Mas de vez enquanto, quando trancado no banheiro fazendo essas coisas que só se faz no banheiro (caretas, moicanos punks de condicionador e cuspir água do chuveiro) ele mudava. Mudava mesmo. Sério. Digo mesmo. Bom, se não acredita que mude a página, mas que mudava mudava.

Bom, voltemos a mudança: ele mudava. E era nessas horas que escutava a voz dizendo o quanto era idiota, ingênuo e patético. Que sempre fora e todos percebem isso. Lá, nessas horas, ele escutava as coisas que ninguem gosta de ouvir. E escutava muito mais, mas por pena do pobre coitado que fique só registrado que ele escutava, e mudava.

Da última vez ele escovava os dentes quando, no momento delicado da passagem do canino para o pré-molar ele percebeu. Não só percebeu como quando abriu a boca já escutou. Foi quando disse para si mesmo que, de repente, ela estava sendo só simpática e , de repente, ele estava sendo só e de novo idiota.

Foi dizendo isso que, novamente, teve vergonha alheia de si mesmo.

E continuou escovando os dentes, sendo um idiota sorridente.




Marcel Santiago Soares
-psicólogo e palhaço de nascença-

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