Existe uma dor indescritível. Eu até poderia descrever, mas poucos entenderiam e assim continuaria sendo indescritível. Não falo do amor, essa dor que só poetas e amigos de mesa de bar descrevem com veemência. Por sinal, acho que todo bom poeta é um bêbado inveterado... O que não seria de Drummond se não fosse aquele conhaque, naquela noite com aquela lua deixando ele sentimental?
Mas não é de amor que eu falo, muito menos de anjos tortos. E de um outro torto. Um torto que teima em pular, correr, gritar, e as vezes ficar mudo. Jogar as coisas pra cima só pra que elas não caiam, andar em uma bicicletas pela metade, um sapato enorme e sobretudo usar aquele nariz vermelho ridículo. Um ridículo por natureza.
Todo mundo sabe da palhaçada que é isso tudo. Alguns amam, outros odeiam e muitos tentam futilmente ignora-los, mas uma coisa é certa: todos olham. É como uma regra que Deus fez, o décimo primeiro mandamento: "Não desviarás o olhar".
Mas e depois?
Um dia vou tomar um conhaque no meio da noite e fumar um charuto. E vou tentar em vão descrever a tortura que é limpar o sorriso de um torto.
É o fim? É o fim?
Marcel Santiago Soares
-psicólogo e palhaço de nascença-