Não é sobre amores e passados que decido abrir este baú de pensamentos. É sobre vontades e desejos passageiros, desses que agente nunca dá valor (não porque seja barato no mercado livre). É dessas vontades que dá um pouco antes de dormir ou um pouco antes de acordar. Enquando balança o dedo na água do chuveiro no instante mágico em que ela esquenta. Na surdina, embaixo do traveisseiro, onde os pensamentos não podem escapar.
Lá, no reino embaixo dos lençoes, é que se lembra das vontades da infância perdida. Ah, vontades simples de se lidar. O amor pela vizinha do andar de cima; daquela irmã do amigo mais velha, no banheiro só minha; dos quilos emagrecidos para ser notado, do medo de apanhar por pular na piscina de pelado; do grito seco e mudo quando seu amor foi desdenhado; da primeira carta escrita com carinho " seu namorado"; da primeira festa americana; da primeira Ana; da última Ana; da sempre ela; da prova de matemática que não estudada; da primeira colada; a primeira poesia escrita, traduzida de uma boyband; primeiro porre que era pra ser só um esquente.
Lá, no reino embaixo dos lençoes, quando os raios da noite ja predominam e dominam, é que dá vontade de pensar o que agente fez.
E, não vamos tentar ser poéticos, um parágrafo parece ser tão pouco.
Lá, no reino embaixo dos lençoes, da vontade de pular logo pro futuro e ver que no final deu tudo certo.
Marcel Santiago Soares
-psicólogo e palhaço de nascença-
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
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